Você já segurou uma arma nas suas mãos? Eu acho que não precisa ser de verdade, apesar da diferença óbvia. Nossos olhos humanos não vêem distinção entre simulacro de poder e poder de fato. Talvez somente por sentirmos medo. O que há de mais apavorante na arma é a morte. Se ninguém morresse, se só machucasse, ainda tudo bem. Se só doesse – mesmo que muito – ninguém usaria uma arma para assaltar. Parece que a situação toda é apavorante; talvez tenhamos nos acostumado a isso. Porém, o que é profundamente instintivo é temer a morte. Fazer do inimigo invencível algo a não ser olhado nos olhos. Algo a não ser dito verdadeiramente. Algo a não ser tocado.
Eu falo disso porque quem não sente medo de morrer ou já está morto, ou é tão respeitado e não olhado nos olhos e não dito quanto a própria. Pegue a figura idealizada de um soldado, por exemplo. Eles, a última marca de diplomacia antes da ignorância, intermedeiam vidas entre duas nações, para proteger não sei quantos ou igualar a balança (o que não faz muito sentido, já que eles estão tirando mais vidas do que se não tomassem os fuzis nas mãos). Sim, nós o respeitamos. Os médicos que ressuscitam ou evitam que almas sejam levadas. Até mesmo a raça ignorada de doutores, os advogados, que mais dia, menos dia, tiram cabeças e cabelos da guilhotina. Que brigam entre si como soldados. Todos têm em si o estigma que põe mortais de igual para igual em negociação com a Dona Morte.
A primeira vez em que reconheci esse temor da Dona Morte foi a primeira vez em que segurei uma arma nas mãos. Como naqueles filmes em que os pais saem da casa de um grandalhão (ou pequenininho) e o último resolve mostrar alguns dentes caninos antes que seu respeito seja perdido. Ele não se incomoda em mostrar mérito, sucesso, saúde. Ele leva seus amigos, provavelmente na esperança de virar o alfa do bando, para ver uma arma.
Talvez por ter visto demais esses filmes, eu não fui diretamente à arma. Tive medo da mulher em seus 45 anos acenando a cabeça para mim do fundo de um funeral. Tentei inclusive fingir que não a vi, desviar a cabeça e puxar qualquer outro assunto. Mas meu amigo brandiu a ferramenta, praticamente implorando por um poder que jamais seria seu, já que ele a segurava pelo cano. Isso não é o jeito certo de se impor.
Gostaria de dizer que em seguida eu peguei a arma só para mostrar pra ele como é que se faz. Mas não foi por isso. Foi porque no final, os que mais têm medo são os que mais facilmente se deixariam levar pela mulher de 45 anos olhando olho no olho e de igual para igual.
Não foi o que eu disse para o meu amigo, porque eu não sou o grandalhão, nem o pequenininho. Eu a tomei da mão dele para apontar para o chão, dizendo que ele não poderia tratar uma mulher de 45 anos assim. Ele tinha que dominá-la pela cintura, mostrando poder em vez de ousadia. Eu disse que era assim que se fazia, mas só disse. Minha cabeça já estava longe, em contato com alguma outra coisa fria, meu dedo no gatilho, por assim dizer. Eu não pisquei.
Temer a morte faz com que este primeiro encontro, e todos os outros, sejam de penitência. Como se a vida já não tivesse tanta chance. Como se os doutores fossem falhos e os soldados, prepotentes. Porque a gente reconhece que nenhum revólver no mundo é igual à morte. Ninguém possui o giz que risca o aqui dali. O melhor que fazemos acaba sendo um empurrão para alguém que não tem equilíbrio. Quer dizer, nunca alguém vai cruzar a linha de volta para cá. Ninguém é poderoso o suficiente para olhar olho no olho da Dona Morte.
O momento acabou. Meu amigo começou a rir, e me ajudou a lembrar que ainda era apenas um garoto e que eu não tinha calibre para sair com uma mulher de 45 anos. Eu já não poderia segurar a pose como quem quer segurar a Dona Morte nas mãos.
O tempo passou. O amigo saiu da escola, e eu nunca mais vi uma arma. Não há necessidade, eu ainda sinto seu peso nos meus dedos. O tempo passou, mas a lembrança persistiu. A vida passando… e eu acho que a próxima vez só pode ser no dia da minha própria morte.
Toda gente também que é que nem eu, nem o grandalhão, nem o pequenininho, sabe que se arde demais para ter um dia fora do miolo. Extraordinário. Menos, até: eu aceitaria uma hora fora do miolo, só, sem reclamar.
Afinal, hoje eu não sou apenas um garoto; pelo menos quero ser mais. Eu gostaria muito de um fim extraordinário para compensar a chateação. A Morte é uma mulher de 45, enquanto a vida é uma coisinha insuportável de 21 que se acha muito malandra.
O tempo passou e eu quero mais aquela do que esta. Seria impossível dizer com certeza que vou cruzar a risca de giz e não vou querer voltar atrás, mas te digo que não sou mais apenas um garoto. Não vejo mais graça em receber miséria da infeliz de 21. Preferiria um não de 45.
