Bangue.

•julho 21, 2011 • Deixe um comentário

Você já segurou uma arma nas suas mãos? Eu acho que não precisa ser de verdade, apesar da diferença óbvia. Nossos olhos humanos não vêem distinção entre simulacro de poder e poder de fato. Talvez somente por sentirmos medo. O que há de mais apavorante na arma é a morte. Se ninguém morresse, se só machucasse, ainda tudo bem. Se só doesse – mesmo que muito – ninguém usaria uma arma para assaltar. Parece que a situação toda é apavorante; talvez tenhamos nos acostumado a isso. Porém, o que é profundamente instintivo é temer a morte. Fazer do inimigo invencível algo a não ser olhado nos olhos. Algo a não ser dito verdadeiramente. Algo a não ser tocado.

Eu falo disso porque quem não sente medo de morrer ou já está morto, ou é tão respeitado e não olhado nos olhos e não dito quanto a própria. Pegue a figura idealizada de um soldado, por exemplo. Eles, a última marca de diplomacia antes da ignorância, intermedeiam vidas entre duas nações, para proteger não sei quantos ou igualar a balança (o que não faz muito sentido, já que eles estão tirando mais vidas do que se não tomassem os fuzis nas mãos). Sim, nós o respeitamos. Os médicos que ressuscitam ou evitam que almas sejam levadas. Até mesmo a raça ignorada de doutores, os advogados, que mais dia, menos dia, tiram cabeças e cabelos da guilhotina. Que brigam entre si como soldados. Todos têm em si o estigma que põe mortais de igual para igual em negociação com a Dona Morte.

A primeira vez em que reconheci esse temor da Dona Morte foi a primeira vez em que segurei uma arma nas mãos. Como naqueles filmes em que os pais saem da casa de um grandalhão (ou pequenininho) e o último resolve mostrar alguns dentes caninos antes que seu respeito seja perdido. Ele não se incomoda em mostrar mérito, sucesso, saúde. Ele leva seus amigos, provavelmente na esperança de virar o alfa do bando, para ver uma arma.

Talvez por ter visto demais esses filmes, eu não fui diretamente à arma. Tive medo da mulher em seus 45 anos acenando a cabeça para mim do fundo de um funeral. Tentei inclusive fingir que não a vi, desviar a cabeça e puxar qualquer outro assunto. Mas meu amigo brandiu a ferramenta, praticamente implorando por um poder que jamais seria seu, já que ele a segurava pelo cano. Isso não é o jeito certo de se impor.

Gostaria de dizer que em seguida eu peguei a arma só para mostrar pra ele como é que se faz. Mas não foi por isso. Foi porque no final, os que mais têm medo são os que mais facilmente se deixariam levar pela mulher de 45 anos olhando olho no olho e de igual para igual.

Não foi o que eu disse para o meu amigo, porque eu não sou o grandalhão, nem o pequenininho. Eu a tomei da mão dele para apontar para o chão, dizendo que ele não poderia tratar uma mulher de 45 anos assim. Ele tinha que dominá-la pela cintura, mostrando poder em vez de ousadia. Eu disse que era assim que se fazia, mas só disse. Minha cabeça já estava longe, em contato com alguma outra coisa fria, meu dedo no gatilho, por assim dizer. Eu não pisquei.

Temer a morte faz com que este primeiro encontro, e todos os outros, sejam de penitência. Como se a vida já não tivesse tanta chance. Como se os doutores fossem falhos e os soldados, prepotentes. Porque a gente reconhece que nenhum revólver no mundo é igual à morte. Ninguém possui o giz que risca o aqui dali. O melhor que fazemos acaba sendo um empurrão para alguém que não tem equilíbrio. Quer dizer, nunca alguém vai cruzar a linha de volta para cá. Ninguém é poderoso o suficiente para olhar olho no olho da Dona Morte.

O momento acabou. Meu amigo começou a rir, e me ajudou a lembrar que ainda era apenas um garoto e que eu não tinha calibre para sair com uma mulher de 45 anos. Eu já não poderia segurar a pose como quem quer segurar a Dona Morte nas mãos.

O tempo passou. O amigo saiu da escola, e eu nunca mais vi uma arma. Não há necessidade, eu ainda sinto seu peso nos meus dedos. O tempo passou, mas a lembrança persistiu. A vida passando… e eu acho que a próxima vez só pode ser no dia da minha própria morte.

Toda gente também que é que nem eu, nem o grandalhão, nem o pequenininho, sabe que se arde demais para ter um dia fora do miolo. Extraordinário. Menos, até: eu aceitaria uma hora fora do miolo, só, sem reclamar.

Afinal, hoje eu não sou apenas um garoto; pelo menos quero ser mais. Eu gostaria muito de um fim extraordinário para compensar a chateação. A Morte é uma mulher de 45, enquanto a vida é uma coisinha insuportável de 21 que se acha muito malandra.

O tempo passou e eu quero mais aquela do que esta. Seria impossível dizer com certeza que vou cruzar a risca de giz e não vou querer voltar atrás, mas te digo que não sou mais apenas um garoto. Não vejo mais graça em receber miséria da infeliz de 21. Preferiria um não de 45.

… mas poderia ter sido outra coisa.

•junho 29, 2011 • Deixe um comentário

Pra avisar que eu estou mudando, prum lugar menos visionário.

Yehehehe.

Proposta de redação: O texto acima é uma fábula – uma narrativa de fundo didático, em que os animais simbolizam um aspecto ou qualidade do ser humano. Narre uma história de vida moderna que seja a transposição da fábula acima. O seu texto deve ter personagens humanos, e a narração poderá ser em primeira ou terceira pessoa (você escolhe). Não ultrapasse o limite de 10 linhas.

Os dois seguiram a perambular pelo mato alto que pinicava. Qual bufada era mais longa? Ninguém estava ganhando.

- Eu só acho muito insensível da sua parte ficar lá, olhando. – Uma pausa para lacear a gola e o nó. Apesar disso, só pôde dizer fracamente: – acho que você realmente não presta para mim. – Riu para fingir modéstia. – Eu sou uma caipira, você…

- Eu? – Ele, retesando o punho para não fazer figas pelas costas. Ela caminhou mais devagar até parar para coçar o ombro por baixo da blusa. Ele inspirou, e a puxou pelo punho, enquanto ela se desvencilhava, gargalhando.

[malice]

•abril 2, 2011 • Deixe um comentário

Os nossos órgãos são terríveis aumentados milhões de vezes. Para nossa sorte, aumenta também o poder de fazer com eles metáforas.

O problema com esse espaço – que, para ser objetiva uma última vez, fica entre o globo ocular e o recôncavo da olheira, o topo da pálpebra inferior – é que ele faz muito sentido de longe. Nós não o enxergamos de verdade, ele está ali, encoberto pelo alívio de uma linha de cílios lhe cobrindo. Mais do que cobrindo, essa linha de cílios chega a relacionar-se com o branco dos olhos, com a pureza do abrir e fechar a luz e a realidade, ali para proteger, ali para brotar, ali para despontar e ir a algum lugar; aonde vão os cílios?

E é mesmo um lugar de purezas, sabotado ou santificado, como melhor o entender, mas com as lágrimas, sempre encoberto pelas lágrimas ou alguma outra superfície, sem que jamais seque esse simpático local que as mulheres crescidas pintam de preto. Pintam de preto. Cobrem a superfície. Misturam a uma espécie de caldo lacrimal, um resquício das anteriores tristezas, misturam a essa substância o negro azulado de um lápis. Um lápis, um lápis, lápis sem grafite, lápis sem carvão, uma espécie de cera menos sintética, cera com pó de enxofre, de metal oxidado.

E me será assustador ver, aumentado milhões de vezes, aquele espacinho sagrado sabotado, agora sombreado com uma cera com pó de metal oxidado, me será assustador vê-lo assim. E então o abrir e fechar dos olhos não terá um amparo tão sadio; deixar que o negro surja logo ali, onde o salgado consolador brota, escorre, une alguns cílios uns aos outros, fazer surgir a escuridão ali, no anteparo tão sadio para a pálpebra superior, a dramática, a que finalmente diz não.

E as mulheres crescidas que recobrem-se de pó. Quem dera alguém gritasse lá de cima: “Ora sois feitas do pó!” Porque somos.

O pálido então recoberto da escuridão azulada que não é escuridão, que não patina, porém patina, é como que uma invisbilidade voluntária do sagrado altar onde são sacrificadas lágrimas, de onde elas despencam, e de onde já brota o negro dos cílios, os cílios em posição de prazer ou de culpa, redobrando-se para cima ou rejeitando de um parapeito, ou sendo parapeito para as lágrimas, eles, os cílios, eles já são.

É o que me assusta nos cílios. Em uma dobra importante do corpo, sensível, agoniante, surgem pelinhos que intensificam a dor, mas protegem de qualquer coisa, que sentem, que mais do que tudo sentem, como a puberdade a dar sinais, como o primitivo a dar sinais, a proteger-nos, a amparar nossas lágrimas e então deixar que caiam. Mas quando não, uma proteção contraditória. E atrás, nossas almas.

Atrás nossas almas. Depois dos pés das escadas, nossas almas.

Por que pintar a escadaria de negro, igual tapete nunca vi, prometer primitividade onde o infantil derrama suas nascentes? Suas nascentes de oceano, que vêm parar no canto de um sorriso e então nos entregam por completo da desolação, e os lábios igualmente fechados como os olhos, mas os lábios completamente diferentes!, carnes, de fato, fendadas, nada de escadarias, venda alguma!, carnes em chamas espreguiçando-se das sombras.

Penhascos, na verdade, beiçudos ou não, mas penhascos antes do queixo – orgulhoso! – penhascos beckoning – Vem! – do outro lado, para o outro lado, depois as carnes, músculos, descer sem fim pelas carnes. Mas e antes? E durante, inslusive, revolvido pela língua ligeira agora com preguiça, preguiça, vai a um lado, a outro, apalpa, ri, ri, acena, provoca, molha.

Essa caverna vermelha apropriando-se de qualquer coisa é um fenômeno assustador. Músculos apalpando, forçando… e então, inesperado, a defesa, a maturidade primitiva; os dentes caninos pungindo a carne.

Lábios leporinos, dentes caninos… tudo faz muito sentido. Principalmente para muitas mulheres crescidas, cheias de mais substâncias para cobrir a carne de mais vermelho, de sangue, dramatização de novo de uma autofagia que nunca ocorreu; e o marfim rindo, rindo, surgindo de dentro de um rosinha igualmente simpático que promete que a saliva é um vizinho amigo, aqui algo extraordinário, algo não simplesmente fora do comum, algo quase maligno, eu temo dizer, maligno, maligno, que punge a carne e dá cor à rosa.

E brota dali! Como pode? Dali! Dali mesmo, the boneless gums, e então o osso pungente, o osso clava forte, para proteger a carne por dentro, ou acobertar-se atrás de carnes, envolto por carnes, um irmão mais velho solteiro, para rugir, para sorrir, para amarelar, para ser manchado pelo sangue da carne, herói?

Aresta

•março 19, 2011 • Deixe um comentário

se surpreendem com a explosão, ora, é meu artifício artístico, essa vida heterogênea.

De repente – ele não o pôde explicar – uma vontade de violência o subiu até a ponte da realidade. Ele poderia jurar que a vista se lhe avermelhou, tão forte o sadismo veio. Aquele vento nos ouvidos, a vertigem sem direção; e ele se levantou.

Hesitava pelo que estava por vir, já que aquele momento não era seu. A maldita cadeira de plástico, presa em uma ranhura do chão de paralelepípedo, aquelas ações insolentes, todos eles a gritar “Exploda!”, e não era um pedido.

Não era um pedido. Seus passos agora engoliam a calçada. Nem o calor, nem o frio – ele era sua própria fonte de temperatura -, mas algo sendo queimado por entre a fenda dos olhos. A gente. Os metais. Incontrolável!

Mas espere, que hoje de manhã nada disso estava acontecendo. Um instante antes do fósforo riscar – nem cigarro, nem designo divino – tudo normal. Normalidade essa que ele não desejava.

A garçonete havia perguntado, “O senhor deseja mais alguma coisa?”, ele nada havia respondido, não podia, estava por aquele fio que desenrolou e tensionava às voltas com seus cismos, agora o ímpeto o tomava por completo e ele não sabia apontar um motivo para dizer não, porque a raiva era real, o ódio era real, tão real quanto palpável, agora essas pessoinhas passando ao seu lado, sem imaginar sua alma por dentro, sem imaginar que aquele, aquele mesmo, aquele é o insurrecto vingador de tudo, e todos se arrependerão de não se terem arrependido…

Ele tropeçou enquanto não olhava para o chão. Um célere momento em que o olhar sai, e alfineta. Mesmo assim não o penetrou. Ele não saberia dizer se o olhar saiu simplesmente para provocá-lo, ou para realmente pará-lo – em outras palavras, um olhar dividido -, ao passo que aquele momento o avermelhou mais ainda, agora era também problema dos desníveis na terra, era problema de todos e como isso o atingia, que ninguém tivesse a menor noção de que aquele grande homem bufante que tropeçou na calçada a faria pagar, e todos os que assistiram, pagar!, nada pararia a fome derradeira, e ele continuou a andar, pisoteando a calçada, evidenciando sua posição meramente ilustrativa, aliás, menos que isso, sua posição inferior à menor das criaturas, e o esgoto, e o cheiro de esgoto, e as pessoas rindo, as pessoas pensando “Quem vai lá?”, e vai ele, vai ele, o herói e o vilão, um grande Jesus Cristo com uma foice e sem qualquer perdão, as garçonetes que sairiam correndo atrás dele dizendo que ele não pagou a conta, ele viraria para vociferar-lhes na cara “Vou eu! Eu! O herói!”, todos tentariam contê-lo e ninguém, absolutamente ninguém o pararia!

Farto dessas ruminações, sentiu necessidade de estender o poder a um ser inanimado – pau, barra, taco, revólver, saco de lixo cheio de vidro, ou de gatinhos -, voltando o olhar rapidamente para frente, evitar cometer os mesmos erros, não é mesmo, não queremos tropeçar, não nos gatinhos, não, não, os gatinhos não têm culpa, e vinha vindo exatamente aquilo, um amontoado de sacos de lixo pretos que ferem a vista da gente e fedem a chorume, deles sim era a culpa, aquele cheiro que se une ao plástico queimado, ao mijo, e dançam em volta dos gatinhos e dos inocentes que não têm culpa, aquele seu próprio lado que hesitou, “Venha, dê-me a mão, que vou te levar prum paraíso onde ninguém te alcance!”, que despropositado lado hesitaria ainda outra vez com tal convite, nenhum, eu digo, nenhum, porque os inocentes sabem em quem confiar, e confiam em quem tem o pau, a barra, o taco, o revólver, os abusivos de final de semana que na realidade vêm para enfrentar os demônios da semana, e tomou um pedaço de madeira molhado de chorume – o sangue inimigo! -, parou, e procurou uma vítima.

A rua, sem notar qualquer movimento de um indigente com pau na mão, seguia seu movimento, matando, tolhendo. Ele olhava para os lados e procurava rostos de demônios, de gente que não seguraria sua mochila pesando o mundo no ônibus, que não pediria com licença por favor obrigado, que mataria gatinhos. Então temeu perder os instintos. O movimento escorria com aqueles rostos que na verdade diziam flagelo, sacrifício, saco cheio. O pau baixou um pouco, as veias não tinham mais com que dilatar. Dilatar-se com essa gente, veja só. Impossível.

Houve uma relutância, claro – uns espasmos que ergueram de novo o pau -, mas logo passaram, aquietaram. O Lado Que Hesitou veio de seu bunker acariciar-lhe a cara retorcida pelo sofrimento, beijou-lhe a testa, sem dizer qualquer coisa. O Homem Grande sentou no sofá, suspirou. O suor lhe descia pela cara, e o silêncio recobria a sala de vergonha. Virou-se uma última vez para o seu protegido, cheio de carinho, e então agarrou o controle e ligou a televisão, sem ver o sorriso desaparecer no rosto ao seu lado.

Divagações de louça,

•janeiro 11, 2011 • Deixe um comentário

ou devagar,
ou manias de louça,
ou meninas de louça,
ou pode ser também aquela historinha de porcelana, alá que legal,
ou sei lá que raio!

 

As irmãs monossílabas e grossas estão lá raspando a casca na sala, ou nem isso. Creio que a distância entre nós já basta.
– Cata as sementes da pia!

 

mea culpa,
mea maxima culpa.

 

Eu sigo cantando e paro por um pouco de conforto.
— Você vai deixar a louça pela metade?!
— Não vem aqui, não? — os punhos na cara, prontos pra briga.

 

Vêm elas rugir pra mim.
Ora, e quando eu estava entregue à grossura tanto quanto elas? Tampouco me responsabilizaria. Nem a música, nem a preocupação, nem os sorrisos. A bem da verdade, eu queria mesmo era que os sorrisos se esfacelacem nas minhas mãos grossas.

 

Mas mesmo sem respaldo, dá vontade de urrar de volta.
Deixo pra lá. Não vai levar a nada bater cabeça no escuro.

 

mea culpa,
mea maxima culpa.

 

- Sabe, nessas férias eu descobri que trabalho pesa.
- Éé… Me perguntam como eu consegui, e eu nunca sei.
“… por que esse pretérito?! Sua paixão empreendedora de vencer mudou?”
Doce esperança.
- Cuidando das três e da casa toda, eu não parava um minuto!

 

… ah.
Não foi bem isso o que quis dizer. Por que discutir?
Eu nego e bato o pé (mas só aqui entre nós): a mensagem não chegou e pronto. A culpa – agora – não é minha.
Não somos mais as mesmas.
Ponho a máscara da admiração e sigo esfregando. Algo escapa. Algo sempre escapa.
Uma aspereza disfarçada, a feiura por trás, e eu digo “Quer que eu lave com a bucha?”

 

mea culpa, ma nem pra tanto, hem?

 

E se vierem, eu digo que estou na louça, oras. Estou dando duro também, não estou de moleza – esse papo nunca funciona.
O horário delas é insuperável!

 

Não somos mais as mesmas, e talvez nunca voltemos a ser. Esses encontros primos que nunca mais aconteceram, estarei a dar voltas de costas?
De olhos fechados, eu rio.
Que mistura de tempos.

 

E os marcadores? E a música?
Eu cantarolo IAMX e ela assovia MPB.
Isso chegou a dar certo.
Mas parou.
Foi a inspiração e instarou o peso.
Rugidos all over, e eu daria tudo tudo tudo por um lobinho que fosse.

 

ps: hoje o encaixe pretensioso está liberado, mas não vá pensando que é festa;
I just don’t want it to grow.
ps2: sinta cheiro de brás bexiga barra funda – apesar de velho, ou morto.
ps3, pra aproveitar que eu quase nunca uso o maravilhoso recurso de fingir que terminei: antes de mais nada, sou uma cristã, afinal de contas!

Deliverance – I’m just the messenger, don’t shoot me down

•dezembro 30, 2010 • 1 Comentário

para festejar, um dia, a grafia velha.

and, just for the record, I really hate him.

Jorge deslizou a mão sobre o volante do automóvel devagar e virou uma esquina.
Tentou prestar atenção no tráfego enquanto pensava. “Digo para dar uma voltinha no quarteirão e a sigo de longe, devagar, brincando de pique-esconde, predador. Brincando de pica-esconde, de uu-achô.”

Sorriu. A idéia pairou, transpassou; veio vindo, foi, um espectro que vai e volta tentando entrar. Foi então tomado pela ciência do que se denunciava nas suas calças. De repente, se sacudiu.
Tolice. Quis se recompôr. Precisava de algo mais elaborado, mas esses filhos da puta entravam na sua frente e não saíam mais. “Essa gente não deveria ter direito à carta. Bando de imbecil!”

Fechou um deles, xingou, engatou de repente e saiu forte dali, batendo porta. Neste cômodo, sim, nem claro, nem escuro – vazio.
Encarou o ambiente com olhar baixo de águia, como se a parede a sua frente abrisse para seu campo. Predador – ele era exigente com quem devorava, engoliria.

A experiência nunca houvera falhado, tanto a de antes quanto a no agora. Lembrou-se que estava excitado, e corou também porque sentia vergonha.
Não era comum. É que acabara de ocorrer um incidente na mídia e a humilhação corria solta. Nem tanto por se sentir irmão do réu, muito menos por humilhar-se junto daquela besta descuidada, mas sim porque isso trazia a coisa mais à tona e ele se sentia confrontado a enxergar de fato. Talvez não muito, mas ainda assim…

Atenção agora. Cada detalhe por fazer, que se faça – ele acaba de cruzar uma linha imaginária fronteiriça, além do verde do semáforo. Jorge deve permanecer calmo, junto da manada, mas bufando e exalando quanto deve.
Começou a repensar sua jogada. Uma finta não o satisfez. Mas, chegada a hora, ele saberia.

Esse instinto inconsciente trouxera Jorge ali. O faro, o gosto… já não tão questionáveis. Havia o querer e fazer possível. Vira, desejara, e pronto.
Mas este babaca despertou uma curiosidade que lhe era fatal, porque agitava a maré e ele tinha medo de não poder nadar contra. Ele tinha o cinismo, ele tinha a brutalidade; a condição era não ativar as suas próprias perguntas.

Avistou uma presa de seu gosto. Rapidamente mudou de faixa, cobrindo as suspeitas com a velocidade contínua. Queria disfarçadamente olhar em volta, e certificar-se de que ninguém o observava com censura, mas se o fizesse, declararia abertamente seus propósitos, e seria chamado de sórdido.

Ora, era essencial esconder uma faceta sua da outra, apesar de conviverem razoavelmente bem. Caso uma enxergasse a outra – ou mil vezes pior, se enxergasse na outra! –, isso seria o fim. Nunca mais o predador, e de novo a fome; na certa, dedos em riste.
Jorge era bem macho. Não temia dedos em riste. Quem lhe apontasse um, ele devolvia dois. Se dois lhe apontasse, ele devolveria os cinco num tapa, ou mais dois, três, que fosse. Era bem macho.
Não se tratava de momentos de macho e momentos de bicha, compreende? Não! Algo mais como privar este lado de ter que coincidir com aquele. Antes da tal linha imaginária fronteiriça no verde do semáforo, a família; o emprego, e tudo mais. Depois, predador.
Não havia por que aqueles dois se misturarem. De verdade, sua necessidade andava bem sozinha. Era algo como ir ao banheiro. (Em termos práticos, em vez de pôr pra fora, punha pra dentro. Depois se limpava, lavava as mãos, e ninguém tinha nada que ver com isso.) Não cultivava nem podava.

Começou a ficar aflito. Isso era mau sinal – não era bicha. Aquela história toda lhe entrara na cabeça. Tomaria aquela, e ponto.
Sinalizou em um ângulo fechado, com o vidro filmado lateral oposto a Jorge aberto e abruptamente virou para aquele lado, batendo o pára-choques de trás na valeta.
Já na rua menos movimentada e livre das atenções de avenida, suavizou a marcha, mas não a respiração. Sentou no banquinho do canto do ringue, ouviu a própria voz; estava, na verdade, a enfrentar diversos inimigos, um a cada round. Agora, por exemplo, era a hora do lobo fantasiado de cordeiro. Tapinha nas costas, sacudela pelos ombros.

(fazendo) cena – mais denso que isso só dois disso

•novembro 14, 2010 • 2 Comentários

roubei a cena da árvore de alguém conhecido, mas eu não ligo para copyright porque essa mulher é o cão.


Cabeças e corpos. Ali, distantes, conversando você não sabe o quê, com anteninhas farejando; discutem o futuro. A vaga vida, eles preenchem.

São sorrisos. Todos sorrisos. Aquele ruído repetitivo. Sorrisos travessos, de transgressão própria, passadas rápidas, e somente eles podem entender o que se passa assim, a própria história, e rir da própria brincadeira. Somente eu, amarga, posso reconhecer sua felicidade.

Finjo que sou uma árvore. Finjo que sou uma árvore aqui, e que apoiaram-se em mim para fazer sexo. Nem amor, nem foda. Sexo. Porque sou árvore, e que entenderia do vulgar ou do apaixonado?

Algo referencia à antiga presença nos seus olhares, mas ninguém se lembra. Ninguém parece lembrar da vida que houve em mim. Foda antiga tem cheiro de casa mal limpa. Melhor esquecer.

Como se nunca tivessem vivido entre minhas cascas velhas. Aquele som – as bocas movendo-se, rindo, eu adivinho o que é, eu sei ler mentes – só por patinhas, as patinhas insignificantes, mas aqui sou tão pequena.

Se eu risse. Se eu entendesse, se eu falasse sua língua, se eu também risse um pouco que fosse; mas não participo. Apóio. Uma curva, uma curva só – se eu esmagasse.

Impassível. Árvore. Um bom lugar pruma foda. Próximos agora. O retrato grotesco. O riso. A teimosia.

Mas distantes. Distantes. A trilha se distancia clareira afora. Se eu visse… mas só adivinho.

 
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